terça-feira, 14 de maio de 2013

COSMOLOGIA: 2113


2113

As pessoas querem saber como o
Universo funciona

Ao abrir meu tablet, vi-o invadido por um estranho conjunto de informações. Advertia que tais assertivas deveriam vir a público no ano de 2113. Antecipava para mim, por eu ser um escolhido por meus méritos, como novato cosmólogo ingênuo.
Humano, boboca, curioso, perguntei:
- Quem enviou?
- Um ente benigno de conformação inusitada. Seus irmãos humanos - 80% deles - irão me definir como sendo deus.
- De onde você é?
- Do espaço extragaláctico, bem longe. Disponho de tecnologia para emissão intergaláctica.
Rápido, assestei meus parcos instrumentos cosmológicos. Assim pude constatar que, o que lá que fosse, postava-se por detrás da nebulosa Saco de Carvão, ao lado esquerdo da estrela Acrux, ao pé da constelação do Cruzeiro do Sul. Acrux é a décima segunda estrela mais brilhante do céu, é uma estrela gigante azul, maciça, postada a 320 anos-luz. Já a nebulosa Saco de Carvão é uma nuvem fria de hidrogênio escuro, situada a 500 anos-luz e parece um buraco na brilhante Via Láctea.



 Constelação do Cruzeiro do Sul com o Saco de Carvão à esquerda da estrela Acrux.



Imagem do Hubble, a constelação do Cruzeiro do Sul, com o Saco de Carvão à esquerda da estrela Acrux.


Pois, por detrás de lá, provinha essa descrição estúrdia, eletrônica. Por que só para 2113? Achei muito distante, talvez eu nem estivesse mais por aqui. Lembrei-me de José Baggio, autoritário, bom disciplinador:
- Manda quem pode...
Submeti-me.
Por instantes devaneei:
 - Seria um ser de silício? Um ente escalafobético, forjado com outra formação de DNA?
Um deus novo, adicionado aos 3.500 deuses já adorados, a vir a ser reconhecido daqui a um século. Enfim, um cara ou ente enfim benigno e prestativo?
Sou um sujeito de imaginação simplória, logo desisti de especular.
Curioso, fui ler o relato. Estava bem escrito com a nova ortografia da língua.
Corria assim:
“- Vivemos em um vasto ambiente ao qual chamamos de Universo. Cosmo.
Quarenta e seis bilhões de anos-luz de extensão, e continua se expandindo a uma taxa de 6% por bilhão de anos.
O Universo é composto de uma esquisita energia escura, não luminosa e, para vocês, terráqueos, ainda inapreensível. Compõe 75% do Universo. E já que você é inquisidor, é algo ainda mais sutil que a nebulosa Saco de Carvão. Por aí...
Essa energia escura faz das suas. Comete estripulias. Possui características próprias, peculiares. Três delas: pode concentrar-se, comprimir-se de tal maneira que, lá por volta de 14 bilhões de anos, converte-se num Big Crunch, num grande condensamento, quintilhões de grau de quentura, trilhões de toneladas por colher de chá, até não se aguentar mais e explodir, milmaravilhosamente, em um Big Bang, grande estouro, sem luz e sem som.
Isso vocês já sabem: aconteceu há 13,7 bilhões de anos. Foi quando surgiu esse Universo nosso, atual, com três dimensões: comprimento, largura, altura e mais o tempo. Basta. Talvez vocês descubram uma quinta dimensão: a quintessência, quando se tornarem mais familiarizados com a energia escura.
E outras onze, nano, no campo quântico.
Mas isso lhes será pouco importante.
O mundo quântico é coisa que só as garçonetes que serviam Richard Feynman entendiam, quando ele tentava descrever-lhes. Ninguém mais. Nem ele mesmo.


 Esquema sobre o desenvolvimento do universo a partir do início.



 Galáxia do Redemoinho com sítios esteliferos.
Exemplo de Razão Áurea vigente desde  as estruturas cósmicas.  Distante 28 milhões de anos-luz.


Bom, a evolução do Universo, ao longo desses 13,7 bilhões de anos, vocês já possuem bem descrita e mapeada. Gás, poeira, quarks, prótons, elétrons, nêutrons, mésons, múons, neutrinos, fótons, léptons, grávitons e, desde o dia 4 de julho de 2012, o bóson de Higgs. Vocês sabem do que estou falando: matéria bariônica, átomos, sendo que  hidrogênio compõe 75% da matéria de que são feitas as estrelas. Elas, como o Sol, são fornos acesos para cozinhar o hidrogênio, fazê-lo perder 0,007% de sua massa, irradiar calor, raios gama, raios x, raios cósmicos e, dois a dois, transformar-se em hélio.
 Estrelas: centenas de tipos, formas, estágios de evolução.
Galáxias: 150 bilhões delas. Constelações, bobagem, forçação de barra do que vocês quiseram ver nelas. Vá lá: nomearam-nas, dando-lhes nomes de heróis mitológicos gregos. Pobreza de falta de imaginação.
Pois bem: o Universo se fez sozinho, obedece às leis e às dinâmicas próprias, tudo é muito longe: um ano-luz equivale a 9,5 trilhões de quilômetros, a luz anda de bonde, 300.000 km por segundo. O Universo é frio 2,7 graus Kelvin: frio pra dedeu.
 (De onde ele achou essa expressão?). E ralo: pouca matéria hadriônica, só uns 3% do espaço sideral.
Diante dessas dimensões astronômicas, vocês, humanos, são muito insignificantes. Daí sua arrogância de, primeiro, criarem seres fabulosos, divinolentes, e depois se colocarem sob o manto de sua pretensa proteção. Como se lá deuses pudessem se comover e se interessar pelos minúsculos negócios e as estúpidas trampolinagens dos humanos.
Bem, de tão desimportantes e vivendo o tempo de vida de seus micróbios – 30, 50, 70, 90 anos –, com seu cérebro escasso de recursos e crivado de preconceitos arcaicos, criaram o impossível: haverá outra vida, haverá infindáveis outras vidas, situadas em um plano, em uma dimensão jamais geograficamente explicitada.
Por isso, eu lhe digo, e com razão, mais vale ser não crédulo que sacristão.

Vamos lá. Vou lhe dar umas palas. Com antecipação, em confiança.
O Universo é o que é, funciona a seu  bel-prazer, sempre existiu, mesmo com diferentes configurações, continuará indefinidamente a funcionar por dinâmica própria, eternamente. Tudo nele é incriado, tudo apenas muda, transmuda-se, evolui, transforma-se, nada se cria, nada se perde.
 Ao acaso, uma coisa transforma-se em outra, compõe com inúmeras outras, vira coisa, depois se desfaz, se desmantela, volta a seus componentes inultos iniciais e se dispõe a novas composições. Ao sabor do acaso, sem nenhuma intenção, nem nenhum mandato de um projetista ao qual o Universo nunca recorreu. Mesmo porque não há, nunca houve disponível, presentificado, neste nosso Universo. Conceber outros é desnecessário, ocioso, despiciendo. Só mesmo coisas de nefelibatas, místicos, profetas, psicopatas carentes de autoafirmação.
Vou logo avisando-o, eu que possuo uma visão bem mais ampla do Universo: só há vida em seu planetinha rochoso vagabundo, de uns 3,85 bilhões de anos para cá.
Aí, interrompi. Sacaneei:
 - E você, não é ser vivo? Em sua estrela, planeta, Saco de Carvão escuro, sei lá, não há vida?
Ele respondeu de imediato, me deu um esculacho e me mandou calar a boca.
Não gostou da minha incisividade.
Acertei em cheio. Fiquei feliz com a minha acuidade. Tratei de obedecer.
Sei como é: se você interrompe a fala de um bom orador, ele fica puto, admoesta-o e leva um tempo para se recuperar.
Foi o que aconteceu.
Um minuto depois apareceu no écran.
- Veja se não me interrompe. Vocês, humanos, são uns cretinos.

1 - A natureza das coisas da natureza, no Universo e em seu planeta, é tudo aquilo que o real da realidade demonstra. Sem babados, firulas ou idealismos. Vou lhe demonstrar como as coisas realmente são, para que vocês possam compreendê- las.
2- As coisas em si amam acontecer, no suceder, por elas próprias, sem outra interferência que não o acaso. Está lá no seu livro Um abreviado de quase tudo, página 277.
 As coisas simplesmente acontecem pela própria natureza de assim serem. Vocês são maniados em buscar a  causa  da causa  da causa  antecessora disso ou daquilo, ficam numa perguntação infernal.
Pois bem, digo-lhes literariamente:
As coisas, mesmas, por si, escolhem de suceder ou não, no prosseguir.

 Tudo no Universo é composto das quatro dimensões, acrescida da força mais fraca, a gravidade, da ordem de 1040  vezes mais fraca que a força fraca eletromagnética. A isso, somam-se a energia escura, a matéria escura e a matéria luminosa bariônica.
Há quatro níveis hierárquicos entre si (mal) articulados:
o enorme de grande – o cósmico;
o rapidíssimo – os fótons, os neutrinos, os léptons e os bósons;
o campo médio – onde vivemos, nosso mundo, corriqueiro;
o extremamente pequeno – o nano, o quântico, o Planck.

- As coisas, por vezes, funcionam como “as sementes das coisas”. Elas, os átomos e os demais componentes de tudo, são eternos, indestrutíveis e imortais. Um próton dura 1035 anos, embora estejam em constante estado de transitoriedade.

As sementes das coisas, os corpos das matérias, os múltiplos componentes do Universo estão em incessante processo de formação, complexificação, constituição estável provisória, dissolução e disponibilização para redistribuição.
A soma geral de tudo no Universo permanece igual, a mesma. Sempre.
Há uma incessante mutação de formas compostas de elementos indestrutíveis.
Há um código que nomeia e mapeia as partículas elementares, limitadas a essas todas vistas, apreendidas e conhecidas. As 18 de seu Modelo Padrão dos constituintes do Universo que vocês, canhestramente, já conhecem.
Tudo balança imerso no bolsão do éter da energia.
São 92 elementos químicos naturais ou os 118, contando aqueles, artificiais, que vocês, humanos, criaram, mesmo que seja por milionésimos de segundo. Sua Tabela Periódica de Elementos é uma das cinco ou seis coisas que vocês apreenderam muito bem.




 Tabela periódica dos elementos químicos.



Também mediram corretamente a velocidade dos fótons da luz.
E criaram a unidade de ano-luz, equivalente a 9,46 trilhões de quilômetros.
Já a Unidade Astronômica baseada na distância média da Terra ao Sol, de cerca de 149,6 milhões de quilômetros, é minúscula. Unidade Astronômica ou UA.
Andei mensurando o total de galáxias existentes no Universo. Muitas se acenderam dois bilhões de anos depois do Big Bang e, hoje, estão quase todas situadas no Universo profundo, captadas no Campo profundo do Hubble.
São 127.359.314.287 galáxias. Cada qual com um número médio de 107.539.827.391 estrelas. Isso dá um total de 1.369.618.686.000.000.000. Corpos celestes luminosos. Compõe 3% da massa presente no Universo. Grande demais, pequeno demais. E tirando eu e vocês da Terra, tudo absolutamente morto e inútil. Sem nenhum propósito. Puro desperdício de confecção para nada nem por ninguém. Um quintilhão e meio  de corpos siderais vagantes, extravagantes.
E bilhões de vocês querem crer num design  inteligente, que concebe um cosmo inútil, em puro desperdício. A vã invocação de um designer é estatisticamente impossível. Vocês, no entanto, possuem a mania doente de obturar as cáries do improvável com  crença abstrusa. Haja fé!


 Enxame de galáxias com trilhões de estrelas, inserido em meio à matéria escura, situado a 400 milhões de anos-luz da Terra. As galáxias mais tênues encontram-se a mais de 13 bilhões de anos. Abell 1656.



 Enxame da Cabeleira está pejado galáxias. no entanto, possui 400 vezes mais massa do que a representada por todas as galáxias nele visíveis. A massa invisível é composta por matéria escura, que compreende cerca de 25 por cento da massa do universo.



 Aglomerados de galáxias unidas por filamentos invisíveis que seriam de matéria escura.


Mais uma vez, advirto sobre sua pequenez, desimportância e insignificância. Não tem consolo nem coré-coré. A vocês, só resta se mataram entre si nas 14.000 guerras que sua História registra, com 973 milhões de assassinatos entre os 100 bilhões de seres humanos que já viveram e vivem sobre seu planeta.
Brigar e construir estupidez é o que vocês sempre fizeram de melhor.”
 Como Freud, meu emissário não tinha lá grande ideia favorável sobre nossa raça humana. Comanda o homem o acaso arbitrário: a Fortuna.  A constância do caráter humano quase sempre deriva de suas qualidades más, péssimas, mesmo, que se repetem em situações e combinações existenciais em compulsão de repetição. A raça humana não tem um histórico muito bom de comportamento inteligente.
Engoli um muco e não contestei. O ente advinhara ou intuíra as coisas: 973 milhões de assassinatos é um número meu, publicado em 2007, em Um abreviado de quase tudo, acho que esse ente lera meus livros. O relevante é que ele me corroborava. Continuava, soberano:
“- Eu vos digo: o Universo é constituído de um vazio frio, de um nada que pulsa em suas intermitências e inconstâncias.
É assim que, lá em quando, gera novidades, coisas, partículas, fenômenos.
Não há um centro, um ponto fixo, um marco de começo. As  partículas, inquietas, são dotadas de um movimento incessante, dançando no espaço vazio.
É assim que elas inovam e também se repetem, em seus clinâmens, em um balé louco, sem sentido. Colisão dos átomos que, em sua precipitação no vazio, seu clinâmem, dá origem a todas as formas do Universo. Partículas, energia, espaço vazio intangível, é tudo o que existe. E mais nada além...
Para quê? Para nada. Pura inutilidade de tudo que há na sinfonia desarrumada do Universo.
Vá lá: seus cientistas tontos e seus pensadores minúsculos conceberam o Universo como se fosse dotado de especiais características tais, favoráveis para fazer surgir a vida de vocês.
Pretensiosos que são: criaram a concepção de um Modelo antrópico. Vocês adoram divindades e absurdos: mais de um quintilhão de corpos siderais para gestar e parir humanidade em só um planetinha vagabundo e insignificante. O rugir de um bacana disparo para gerar um filhote de rato? Pooodeee?
Haja cachimônia. Que bom deus do desperdício faria isso?

Não há vida baseada em átomos de carbono, oxigênio, nitrogênio, DNAs, em nenhum outro lugar constituinte do Universo. Inútil procurar. Vocês gastam um trilhão de dólares em armamentos, por ano, para se matarem e, agora, milhões de dólares em ridículas procuras de seres extraterrestres.
Menos mal, embora quase tanto inútil, essa moda brasileira de queimar milhões de reais com 15 minutos de pirotécnica na noite de 31 de dezembro, nas suas cidades principais. Grossa bobagem. Puro desperdício. Mas vocês adoram um se. Um quiçás. Um espetáculo. Um hiato, uma tergiversação.
O Universo é incriado, seu funcionamento caótico e ordenado é autônomo, sem ninguém no comando. É tudo uma total insensatez.
A existência de coisas e de seres não tem fins nem propósitos. Existe somente uma articulação criativa ao acaso, construtiva, um élan vital, um movimento eterno que dispõem, integram e organizam as coisas e os seres em seu planeta. E uma dissolução incessante, numa destruição recuperativa, funcionando em uma dinâmica  inexorável e aleatória.
Tudo que existe no Universo provém das atrações e dos encaixes das partículas energizadas em seu minueto compositivo. Para o Cosmo, vale a preponderância da energia escura e, secundariamente, a vigência da matéria não bariônica escura. E lá, a 3%, brilha a matéria bariônica luminosa, charmosa e chamativa. Infinitas combinações, recriações, recombinações e desfechos em dissolução e desmantelamento constitui o firmamento e o Universo em campo profundo, que o seu Hubble captou e vem revelando… Criação e destruição. Para vocês, vida e morte. Eros e Éris.
O Universo gosta de despender tempos cósmicos: milhões, centenas de milhões, bilhões dessa unidade minúscula que vocês chamam de anos. Assim, o Universo é uma cozinha sem pressa, que cozinha os eventos em tempos muitos largos. Longos. Não é para o  bico de vocês, não!
 Uma estrela é uma bola de gás autogravitante, cujo “trabalho” é fundir hidrogênio, espalhar luz e radiações e produzir hélio.
Vocês, no entanto, possuem uma prerrogativa. Diante da inexorabilidade dos determinismos, nos quais causa determina causa em sequência periódica, vocês, às vezes, em instante de inteligência e de lucidez, podem usar seu arbítrio, o arbítrio de sua vontade, para torcer, desviar, comover e melhorar a trajetória dos acontecimentos a sua maior conveniência e a seu melhor propósito.
Mas, caluda: religiosos cristãos pessimamente mal-intencionados usam essa prerrogativa, que chamam de livre-arbítrio, como álibi para livrar a face escondida das iniquidades que Javé, Alá e outros tantos divinos comandam. Livre-arbítrio, coisinha tão escassa quanto pouco efetiva, é vara de marmelo para açoitar cristãos e crentes, como se seus deuses nada tivessem – em sua gloriosa onipotência –, com as maldades que vigoram nos negócios de vocês, humanos, no mundo.
 Humanos dotados de livre-arbítrio? Uma tana!

Como seres biológico, vocês têm a mania doente de quererem saber dos inícios, da criação. Quem tem criação, início, origem, antes e depois, é ser vivo biológico. O resto, o todo do Universo, não: não há cenas míticas de criação. Toda a energia, todo o vazio e toda a matéria são sempiternos. Eternos.
No máximo, gases, poeira, partículas, estrelas, galáxias e constelações, bem como seus bilhões de seres vivos, a partir de uma bactéria replicante, aparecida há 3,85 bilhões de anos. Evoluíram através – todos eles – de um longo processo de tentativas, erros e acertos, descartando o muito mutante pouco útil, e passando o ferrolho evolutivo naquilo que se apresentou como bom, como útil, como dotado de atributo virtuoso e, sobretudo, possuidor de aretê – qualidade dinâmica.


Qualquer uma de nossos trilhões de células é muito mais complexa do que estrelas ou galáxias.

Nosso corpo é composto de 1012 - um trilhão de células animais e 1013 - 10 trilhões de células bacterianas. Cerca de 230 tipos especializados de células se organizam em nosso corpo.
Cada célula é composta de membrana celular, citoplasma, mitocôndrias, lisossomos, ribossomos, retículo endoplásmatico liso e rugoso, aparelho de Golgi, núcleo, nucléolo, glicose, água, ATP-ADP-AMP, milhares de proteínas, DNA e RNA. As células vegetais são ainda mais complexas, por serem dotadas de cloroplástos para elaborar a fotossintese, gerando glicose e amido.
Já as galáxias são compostas por gases, poeira, hidrogênio, hélio, radiações diversas, imersas em matéria e energia escura.




O Universo, enorme e vasto, possui um conjunto de alguns bilhões de variações de fenômenos.
Seu Hubble, seu Spitzer, seu Chandra, seu Webb, seu Planck e seu Herschel, são boas geringonças esforçadas que têm ampliado o escopo de visão de vocês...
São sensacionais. Desvendaram 1% a 5% dessas variações presentes no Universo.
Mas é na biologia, ciência muito mais complicada  que talvez o Universo, que mutações, prodígios, aberrações, equívocos, monstruosidades e "milagres", tentativas aleatórias, acertos, erros, fracassos, seguidos de descartes, são responsáveis pelos 50 bilhões de tipos, de espécies de seres vivos sobre seu planeta, 99,4% deles já falidos e extintos.
Vocês mesmos...sei não...
Visão, joelhos, sistema imunológico, flagelo, sistema nervoso, fala, música, sabedoria e outros tantos: qual foi a evolução de cada complexidade dessas? Como e por quê?
São mistérios que estão na alça de mira para vocês discernirem e decifrarem.

Meu caro interlocutor, digo-lhe com pureza de intenções: a Terra, com sua geografia hostil, seu clima temperamental e soberano, não está posta construída com o propósito de facilitar a vida de vocês. A Terra é um habitáculo ingrato. Não foi feita para vocês se sentirem confortavelmente em casa. A Terra  ruge, venta, erupe, inunda, vai em ondas cataclísmicas com uma estupidez que avassala as conveniências e suas frágeis construções humanas.

Advirto-os também, aquilo que vocês sabem mas fingem desconhecer.
Houve outros bilhões de formas de vida antes de vocês, que não mais existem.
Haverá outras formas de vida depois que sua humanidade se extinguir.
Daí ser uma vã tolice cientistas de curta percepção e mentalidade de anelídeo propalar que, um dia, a raça humana terá que sair da Terra e vir colonizar outros planetas. Qual? Quais? A que distância? Com que meios de deslocamento? A luz anda de bonde. Nada de muito mais rápido vocês estão longe de sequer abduzir, quanto mais de produzir.
Se a Terra é hostil a vocês, o espaço sideral é absolutamente inóspito e cruel. Vocês, homens, são seres de biologia tremendamente delicada.
Recomendo que não se atrevam.
Parem com essa insensatez, com essa sandice. Para viver, vocês precisam de água, de atmosfera propícia, de alimentos. Nada disso há disponível no Universo.
Digo-lhes mais: somos feitos da mesma matéria de que tudo se faz. Se quiser poetizar, diga que somos feitos da matéria dos sonhos. Você já sabe, em seu livrinho 69 etapas evolutivas,  você captou bem. Nada nasce do nada.
Somos filhos das estrelas. Mais especificadamente, de uma estrela supernova que explodiu perto do Sol, há uns 4,7 bilhões de anos e deu origem aos quatro planetas rochosos: Mercúrio, Vênus, Terra e Marte. Ao explodir, fundiu furiosamente os elementos simples hidrogênio, hélio, lítio, a altíssimas pressões e temperaturas, gerando carbono, silício, oxigênio, cálcio, fósforo, nitrogênio, magnésio, cobre, ferro, níquel, chumbo, ouro, platina, e urânio. Entre outros.


Pormenor da totalidade da Nebulosa de Caranguejo, com restos em expansão com 6 anos-luz de uma supernova que explodiu há cerca de 1.000 anos. Percebida por astrônomos chineses e japoneses.


Uma interpretação artística ilustra a explosão da SN 2006gy, uma estrela massiva que, para os cientistas, é a mais brilhante supernova alguma vez registrada. As supernovas ocorrem, geralmente, quando as estrelas massivas esgotam o seu combustivel e colapsam sob a sua própria gravidade. Esta estrela deve ter sido 150 vezes maior que o Sol.
O brilho fulgurante das Supernovas se deve à produção de níquel.


Não restaram traços ou destroços dessa geratriz, a não ser esses planetas que orbitam o Sol. Este, você sabe, é uma estrela comum, de 6ª grandeza, composto de hidrogênio furiosamente fundindo em hélio, desde que acendeu sua fornalha, há 4,7 bilhões de anos.
Vocês, humanos, devem seguir Copérnico: não ocupam lugar privilegiado no Universo. Mais do que fantasiar o princípio antrópico, vocês devem se louvar pelo principio copernicano.
A vida humana ocupa o último segundo do 44º minuto do segundo tempo de uma partida de futebol  cósmico.
O aparecimento do bicho Homo sapiens há 190, 150 mil anos, não se deu em um tempo original e paradisíaco de harmonia e de abundância.
Durante milênios, seus ancestrais não tinham uso do fogo, não dispunham de ferramentas, nem cultivavam a agricultura. Tinham uma curta existência brutal e lutavam para comer e não ser comidos.
A descoberta do emprego do fogo para cozer os alimentos, o desenvolvimento de ferramentas que ampliaram o alcance operacional das mãos e dos braços demandaram  períodos longos e incertos.
O emprego da linguagem para a comunicação foi gradativo. As artes da cultura e a música, bem como a capacidade de criar abrigos e construções são devidas ao esforço comum e ao ferrolho dos talentos insurgentes, aqui e ali, graças ao poderio psíquico  em pirlimpsiquice da espécie. Tremeluzente inventiva.

Nada vem do nada. Tudo custa um preço a vocês, humanos. Vantagens obtidas, com frequência, se deterioram, se corrompem. Onde vocês põem as mãos, fazem degenerar logo tudo e qualquer coisa. Parece que vocês, humanos, possuem a maldição de enegrecer e corromper tudo que tocam
Vivendo uma vida ruim, precária, prudencialmente, vocês desenvolveram anseio por segurança e proteção. Vestimentas, calçados, armas, casas, muralhas, e defendendo-se em grande parte dos cataclismos da natureza hostil, dos animais ferozes e outra sorte de ameaças. Tiveram sucesso. Mas seu cérebro limitado, brocado de insuficiências e de defeitos, sofreu uma mutação, uma metástase.
Transformaram seus impulsos temerosos, cautelares, agressivos para com o mundo externo, em suspicácia, temerosidade, paranoia aos outros seres humanos.
Foi assim que desenvolveram armas e meios para levar a guerra e a morte aos outros seres humanos. De caça, tornou-se caçador de homens: NEMROD.
 Ninguém melhor que Javé preconizou isso explicitadamente no Deuteronômio.
Para proteger seu povinho vagante, mandou-os exterminar os jebuseus, os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus e os heveus. Este é o Javé que, escreveram, instila amor - terror e  autoriza pilhagem a seu povo escolhido para devastar os outros povos, que, por sua vez, seriam filhos desprotegidos de quem? De quais "deus"?
E de javés seu mundo sempre abundou.

Vocês se digladiam e se deliciam com suas dicotomias e dualidades. Corpo e alma. Propõem  e acreditam que o corpo tem origem, nasce, cresce, envelhece e morre. A alma, não. É eterna. Exala do corpo após a morte e permanece viva, transitando por uma dimensão etérea. De vez em quando, se convocada, monta cambona num médium cavalo. E faz este falar asnices, bobices irrelevantes. Assim, vocês se  consolam e se enrolam. De ilusão também se vive.
Pois bem. Morre o corpo, morre a alma. No momento da morte – entre 3 a 12 minutos -, a alma se dissolve. E é para sempre. Não reencarna. Não dá duas safras. Aliás pensando bem, vocês não têm alma. Possuem psique, um aparelho psíquico. Este se esvai logo após a morte do corpo. Morre-se em um instante, mas é por tanto tempo...
Não há vida após a morte. Não há espaços paradisíacos ou infernais. Por via de consequência, é balela de clérigos prometer recompensas ou castigos póstumos. Faltas, pecados, crimes, prescrevem com o tempo. Não existe condenação ou salvação eterna. A curta existência de uma vida terrena é tudo que os seres humanos têm. Em seu meio, de regra, os maus prosperam...

A vida é imanente e transcorre presentificada, momento a momento, dia a dia, até a extinção fatal.
Não há transcendência. Muito menos divinatória.
Saiba que por volta de 2105, 2113,  muitos de vocês já estarão vacinados contra os memes religiosos.
Todas as religiões organizadas e as dez mil desorganizadas são ilusões ignorantes e supersticiosas. Dentro de um século, grande parte da humanidade estará descrente delas.
As ilusões se lastreiam em anseios, pretensões, desejos, temores, medos, fantasmagorias e ignorâncias profundamente inoculados na psique infantil. Vocês projetam imagens de beleza, de poder, de onipotência e de felicidade perfeita que gostariam de usufruir. Seu cérebro defeituoso, sem filtros, imaginam divindades, entes como dotados de tais atributos e correm, pressurosos, a se abrigar no bojo jumbo de suas concepções. Tornam-se assim fiéis crentes escravos de seus próprios sonhos bobos.
Se sofrem sequência de infortúnios ou são vitimados pelas disrupções da natureza ou sofrem pela brutalidade de outros homens, auscultam os céus à procura de racionalizações.
Bobagem. Há explicações físicas naturais para todos os fenômenos que os acometem.
O que se sabe é que o superego não é complacente para com os bons. E os maus  prosperam mais e vivem, por um bom tempo, melhor que os decentes. Por isso, tantas vezes, a justiça tarda e falha. Mesmo que os maus tendam a fazer curto-circuito de suas existências, se destruindo ativamente, entre a quarta e a quinta décadas de vida.

Sob a capa falsa da bondade e do amor gratuito, todas as religiões são malvadas e cruéis. Prometem esperança e benesse, mas sua estrutura profunda é a da excludência, da culpabilização do crente e a da crueldade no exercício da liturgia. Muito cuidado com  quem propala  atuar por "amor ao próximo".

Seres humanos em sua melhor concepção mística ou imagética foram criados por um desastrado Demiurgo, um fazedor preposto, desastrado e despreparado, que sempre fez tudo malfeito, pelas metades. Beleza de concepção imaginária! Pena que seus cristãos sofistas e gnósticos dos primeiros três séculos foram vencidos e exterminados pelas concepções abstrusas, convolutas, impossíveis e escalafobéticas dos protocristãos Pais da Igreja.
Dizer que o Senhor Deus criou vocês, homens, a sua imagem e semelhança, é desmerecer esse Senhor Deus, já  que é o que a maioria da humanidade, a sua imagem e semelhança, consegue , mediocrimente, vir a ser.
Ápice da criação. Senhores do mundo. Príncipes da Terra. Suprema criação do universo. Quanta balela.
 Vocês são facilmente corrompidos: qualquer elogio estapafúrdio os leva a creditar em sandices.

Não existem anjos, demônios, fantasmas, seres de outro mundo, extraterrestres e centenas de outros seres que não existem, mas que habitaram e habitam a imaginação dos povos e das gentes.
 Mula sem cabeça, o homem do saco,  assombração, feiticeiros, ninfas, gremlins, gênios, sátiros, parcas, harpias, mensageiros celestiais, doze coortes de anjos, espíritos de porco, espíritos galhofeiros, espíritos dos mortos, almas do outro mundo, espíritos encarnados e centenas de outros, são meramente criações imaginárias de mentes férteis e estrumadas. Irreais.
Descarte. Delete.

Viver é ter por objetivo, basear-se no princípio da realidade para poder viver em busca do prazer: simples, legítimo, agradável e ressarcidor.  Eludir, evitar sempre que possível o sofrimento desnecessário ou espúrio. É o prazer o máximo ordenador da vida humana. É o maestro comandante da instauração do bem-estar pessoal.

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Ó não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada...
                                              (Gregório de Matos)

Aproveite o dia. Desfrute. Pode ser que seja hoje só. Amanhã não tem mais. Evite toda dor desnecessária. Seres humanos, vocês, decrescem com o sofrimento. A filosofia dolorífica de seus pensadores e de seus místicos é a pregação da desgraça pelada, que só conta pontos para almas masoquistas.
Evite as estradas brasileiras, as drogas de destruição em massa de neurônios. Evite os charmosos esportes radicais, capazes de infelicitá-lo pra sempre.
Passe ao largo de toda empresa enlouquecida que lhe propõe “adrenalina”.

É bom, quando os ventos revolvem a superfície do grande mar, ver da terra os rudes trabalhos por que estão passando os outros; não por que haja qualquer prazer na desgraça de alguém, mas porque é bom presenciar os males que não se sofrem.

Lucrécio, seu Lucrécio, descreveu ai a psicologia do espetáculo. Só não concordo com a frase adversativa:
[...] não por que haja qualquer prazer na desgraça de alguém!
Mentira: há sim enorme expectativa e esfuziante prazer que vocês, humanos, sentem quando o outro, seu irmão, seu semelhante, se estrumbica.
Vai dizer que não?
Mas até ao sempre verdadeiro Lucrécio será permitido esse deslize e essa embromação.

Vocês foram dotados de um cérebro cheio de defeitos. Mal percebem isso. Ficam cantando loas sobre a excelência funcional de seu pálido equipamento psíquico.
Uma das maiores mancadas decorre de sua impenitente capacidade de devanear, a partir de um cisco, e a desejar as coisas despropositadamente.
Vocês, humanos, são acicatados pela mania doente de conceber desejos e fantasias que os fazem querer obter coisas que extrapolam o que o finito mundo dos mortais concede. Querer o demasiado, de incerto jeito, já pode ser acionar o mal, para começar. Vocês pouco se contentam com o prazer derivado do contato com as coisas simples da vida: o pão, a água, o mel, o vinho, o suave convívio, a poesia. Querem mais. E mais. Desafios. Adrenalina. Esportes e bens especiais, radicais.
Aí, se danam, pois o que não dá prazer suave não tem proveito.

Seus ignorantes clérigos e certos pensadores corrompidos vendem para vocês o dolorimento como virtude. Não é. Dor e sofrimento atrasam o desenvolvimento da vida. Aí e aqui.
Isso explica por que os seres humanos são tão infelizes.
É mais fácil evitar uma dor que, depois, empenhar-se em seu desaparecimento.
Embora bichos finitos e mortais, sujeitos ao mais nefando apodrecimento, vocês são desonestos consigo mesmos e tratam de se refugiar no bojo das ilusões de grandeza,  botando o nariz à fanfa, exibindo um ar de infinitude.
A fantasia de obtenção do prazer contínuo e o corrosivo quase secreto pretenso direito à felicidade perene os leva a ansiar pelo amor romântico. Acho sensacional, mas isso, em vocês, perdura por três ou seis meses. No más!
Na ânsia equivocada de que seu bem-estar e sua felicidade dependem da posse possessiva de um ou de mais de um objeto de desejo, confeitado de excessivas qualidades e de excelsos atributos, os humanos são possuídos por uma hiância frenética e irreplegível - miserável -, que lhes traz inquietude, angústia e amargura.
E para tantos, sobretudo para os imaturos e os jovens, o prazer sexual, que é uma das principais alegrias naturais do corpo, tantas vezes torna-se um torvelinho brutal mal modulado, tomado de fúria pela posse do parceiro amoroso.
Mesmo nos momentos de plenitude e de êxtase no intercurso amoroso, uma negra sombra de insatisfação se faz presente.
Uma parceria construída como obra de arte, um casal ataráxico, é o máximo desejável a vocês.
Corpos não foram feitos para entre si se perfurarem e muito menos se fundirem.
Moderação, prudência e respeito aos bons e sadios limites, eis o que, para vocês, é tão difícil de se comportar.
Veja você: pedi um século adiante daquele que você está vivendo. Não é por sacanagem não. É porque sei que sua humanidade é burra, é lenta, é muito torpe quanto à  evolução do seu conjunto de pré e de conceitos.
A mentalidade da humanidade evolui a passo de cágados, mesmo quando sua tecnologia avança exponencialmente.
Assim, com mais um século, vocês terão que acelerar seu aggiornamiento, sua atualização de conceitos, superando introjetos, memes avelhantados.
A saber.
A chamada “boa nova” dos evangelhos do Novo Testamento, não consigo bem captar qual seja. Sob  capa de religião de amor que todas vendem, há sempre cruzadas, inquisições e sharia e jihad, exterminações de infiéis.
 A boa nova que Lucrécio lhes ofereceu é a insignificância humana, metida em um universo de puro materialismo irredentorista. Antes de qualquer outro, Copérnico e Cioran, ele percebeu que o tudo não gira nem depende de nós (vocês), e que o seu destino está traçado por inúmeros fatores determinantes. O principal deles é sua falível constituição biológica. Naturalmente, um desses fatores provém da força e do discernimento de sua vontade. Minúscula - 10%? –, mas atuante em correção de rota. Por vezes, vocês, humanos, até conseguem arrancar dos fados um bom destino. Uma boa fortuna.
Acatar a pequenez implica ter de aplacar o desejo desbragado, insaciável. Acarreta, igualmente, ter que suplantar o pavor da própria morte. Esses são os principais óbices à felicidade humana.
Seu equipamento psíquico, no entanto, dispõe de um roteador, de um norteador, de um corretor de rotas. A razão. A voz tênue e suave da razão. Fraca diante dos memes precocemente encravados no psiquismo pela ignorância dos pais, dos clérigos, e pela mídia estúpida, que prevalece. A razão é como a força da gravidade: fraca, porém difusa, insinuante e onipresente todo o tempo.
A razão implica ajuizar as verdades propaladas, avaliá-las, confrontá-las com a realidade das coisas para descartar – deletar – e ignorar 90% daquilo que deve ser desprezado. Sabedoria é aprender a ignorar o que deve ser ignorado.
Significa recusar as mentiras e as incongruências das fábulas pregadas por padres, pastores e evangélicos de má-fé e de péssima catadura.
As religiões – 10.000 delas? – são a mais formidável e temível fonte de mentiras propaladas.    
É a lisa e bruxuleante chama da razão que induz o real da realidade a revelar aspectos obscuros que a natureza das coisas naturais teima em manter escondidas.
Também é a sua razão o estilete incisivo que cutuca o cerne de sua interioridade inconsciente.
Sua humanidade progredia toda vez que um grande homem foi capaz de encarar, desassombrado, calma e diretamente, a verdadeira natureza das coisas.
Destruir a ignorância é destruir o deslumbramento imbecil (Espinosa).
Compreender a natureza das coisas e a fronesis – o encadeamento da sequência dos fatos e dos fenômenos –, de como elas se encaixam e desabrocham, gera um profundo encantamento.
O aparelho pensante funcionante de vocês – é hora de  lhes fazer justiça – possui bons atributos. Um deles – acho que se deve ao Freud, por sinal, grande amigo da humanidade – é que muitos de vocês conseguem desenvolver e apurar uma pulsão epistemofílica.
Bemächtigungstrieb. Gostar de conhecer como são, como evoluem e como funcionam as sementes das coisas e as gentes. É o que desperta um confortável sentimento de valor próprio. O que  lhes cabe, senhor privilegiado interlocutor, é o que lhes foi prescrito pelo grego Píndaro, tão pouco e tão somente: cada um, cada qual, deve tornar-se aquilo que é, que pode vir a ser. E assim construir sua autonomia, sua liberdade e a fortaleza inexpugnável de sua egodiceia.
 Atenção, senhor Homo sapiens:
Minha missão, caro senhor portador dessa engenhoca ultrapassada, é tentar arrancar a verdade dos fatos e dos atos, das mãos desses herdeiros de ignorantes pastores pobres que viveram no Oriente Médio, há 2.600 anos. Eles – malgrado eles mesmos – se tornaram traficantes de ilusões nocivas.
A vida de vocês é um cenário em mutação constante. Tudo igual. Tudo diferente. Tudo o mesmo, sempre o outro.
Há que haver razão e bons juízos para não maluquescer.
É preciso urgente e urgentemente combater a crença peçonhenta de que réstia de vocês – suas ditas almas – fazem parte de vocês e habitam o mundo de maneira temporária e, que, após sua morte, estarão dizendo bye bye e transmigrando cada um para outro mundo. Desde os drávidas, aborígenes hindus, que essa falsidade prospera, há 7.000 anos.
Ao que se sabe, os únicos espíritos que transmigram e retornam são o espírito de porco e o espírito de contradição.

Frua e deixe fruir. Busque o prazer, o erótico com luz, conhecimento, embevecimento e gratidão.  Consagre sua existência ao júbilo.
Sabedoria é não se rebelar contra os fados, contra aquilo que não se tem nenhum poder.
Veja, meu caro interlocutor. Peço-lhe sigilo, embora saiba que vocês, humanos, são incorrigíveis fofoqueiros. É necessário amadurecer as sementes das coisas da modernidade, para que elas melhorem o índice de conforto e de confiança recíproca, que deve prevalecer entre vocês.
 Desligo.”

Assim falou meu interlocutor. Fui lendo, entendendo, absorvendo. Não mais interferi. Sei que esse mundo – nosso Universo – é tantã – louco. Desacorçoado.
 Estou cansado, com sono e com fome. Uma bacalhoada me espera. Não estou cansado. Estou gratificado, plenificado. Ganhei do espaço sideral um amigo (?), um interlocutor arguto, que entende por demais sobre nossa condição humana. Parece até que ele andou lendo autores de alta literatura.
Pois não é lá que eu já sabia de quase tudo o que o extragaláctico gravou no meu tablet? Como veterano psiquiatra, fiquei careca de saber o quanto fazemos questão de desconhecer o que já conhecemos. Pensar, refletir, inteligir é, em grande parte, reconhecer, em altos planos, o já sabido.
 Vou mostrar para umas quatro pessoas: Madalena, Serufo, Sílvia, talvez o Wagner. Afinal, como homem, adoro uma fofoca.